sábado, 7 de março de 2009


Carta sobre a lua

Tão sozinha e tão cheia de gente
Plena e ausente
Brilha, mas é cheia de nada
Contempla oculta na noite estrelada
e rouba a luz dos outros, dependente

Tem fases cíclicas e todas são belas
Quando se enche de sol, fica amarela
E quando se apaga deixa saudade.
Não se sabe qual a sua real idade,
ela esconde os mistérios profundos.
Iumina sabe-se lá quantos mundos
e inspira morimbundos bem almados.

É calada, traiçoeira e perigosa,
mas sabe ser velha amiga,
mesmo quando é nova.
Tenta ser gente grande
enquanto fica cada vez mais minguante.
Pode ser uma lanterna boa
para os perdidos na estrada.

É consolo para os fugidos,
recanto egoísta para as namoradas.
Ela sabe ser o espelho de quem é
Sedenta, caprichosa e crua...

Será que escrevo sobre mim
ou falo mesmo para a Lua?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Palavras



O mundo te diz:
" mais".
Você discorda.
Diz que é demais.
Só que o mais é um sinal
E o mundo é americanizado.
"See now!"
Não demore.
" more!".

Essa vida cansa,
Não há tempo de rede.
"Re-!"
Tem horas que enjoa.
Digo: não há tempo!
Eles dizem: "tem pô!"

E eu canso.
Maldito vocabulário!
Procuro um time
Mas não há time.

Eu vou, mas tenho sono.
"Só, no!"

Tem muita coisa,
É coisa demais.
E continuo só ouvindo:
" mais!"

Se vou pro sul,
Algo me balança.
Mas escuto:
"Bá, lança!"

Se vou pro norte
tirar algo que me aveche.
"Ave, enche!"

Tudo é sempre na ação.
Nunca numa nice,
Tudo é pequenice!
Chega de demais!

Não sou de safadeza,
Mas quero corpo mole.
E vou alcançar, chega de ao cansar
que meu corpo já cansa.

Depois desta fadiga toda,
É boa hora pro bora da bonança.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



Abolição

Não quero renunciar à vida
para me entregar à poesia.
Nem tampouco me oferecer em sacrifício
para enaltecer a história humana.
Quero ser brisa solta a vagar no dia.
Quero ser fraca, cansada e mundana.
Cheia de vontade de errar o ofício
e vazia de crítica pelo profano.

Quero que nada saia como os planos,
desejo nunca entender o caminho.
Prefiro ser burra a ser hipócrita.
Faço piruetas de salto, enalteço a chacota.

Não me importo em largar a rosa
e abraçar o espinho.
Eu sou um caminho torto, duma via florida.
Renego o cômodo e cambaleio formosa.

Escolho mesmo não entender nada,
não saber se fiz mal ou correto.
Deliberadamente rezo pelo azar
e torço para o meu andar não ser reto.

Quero errar tanto que esgotada peça arrego.
E mesmo assim não obtenha, e siga.
Desejo tudo que perturbe o sossego,
dou parabéns a tudo de bom que renego.

Não me irrito com as críticas,
não pergunto a opinião alheia.
Desta vida toda, só quero ser cheia.
Autêntica, espontânea, se assim o quiser.
Quero ser hoje homem, amanhã mulher.
E não ter definição em cifras e nomes.
Quero só desse mundo ter fome.
Seguir perdida, com a impressão errada.
Nunca desejar desejar nada.

Se o tempo parar, e a escada cair,
eu quero apenas sentir
e não ter medo do podre.
Quero ser o quanto mais pobre
e o quanto mais louco
essas asas mancas de pombo
me deixarem ser.

E, um dia, quando a morte bater na minha casa,
eu dou um chute na cara dela.
Rio debochada, cuspo da janela.
E vou carregada pelos pés, como
uma foliã exagerada expulsa da festa.

Mas o meu público jamais esquecerá a algazarra.
E, no céu, continuarei bagunçando as arestas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008




Ode ao meu pé!

Meu

daqui desse ângulo
parece tão velho
Alguns calos,
poerias do chão
Meu que tanto me deu a mão,
aguentou tanto peso, tanto fardo
de me sustentar calado.
Aguentou meus surtos de dança,
fingindo ser de criança.
Me segurou um pouco manco,
me mantendo de aos prantos.

Meu
Ele tem linhas da vida,
tem traços de castigo, de fadiga,
mas tem um charme curvo e bailarino.
Ele grita quando o impeço de ver o mundo,
quando faço ele parecer alto ou fino.

Meu gosta de ser assim como é:
meio desleichado, sem salto
Meu implica com cada sapato
e canta quando aponta pro céu
Meu bate no chão impaciente
quando fico sentado, descrente.

Meu é o teste pra ver se está frio ou quente
Ele se esforça pondo força só na ponta,
me estimula a alcançar, sem bronca.

Meu se esquiva dos pisões da rua,
se afasta de quem mira uma unha sua.
Meu fareja briga, e chuta
quem não compra minha luta
E me acompanha pelas minhas pegadas
No fundo, sou só eu, meu , e a vontade

Eu e meu companheiro
fazemos acordos
Eu deixo ele descansar,
mas muito parado me formiga teimoso
Meu amigo é ligeiro, tinhoso,
mas sabe bem o que quer.
Viu todas as minhas andanças,
relevou toda farpa sem arredar .

Tem que ser muito chinelo velho
pra caber nesse cansado.
É velho, caprichoso e suado,
mas é só meu e não se contenta com qualquer sola.
Tem que ter muito conforto e luxo
pra esse se torcer pra dar bola.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Diferente



Se você é verde
mas o mundo é azul.
Se você é escuro
em tantos faróis de mentira.
Não se agite, não corra... se atira!
Você é a força nesta masmorra.
Parabéns, você acordou!

Segura a sua cruz
e chuta ela pra Vênus!
Você não é Jesus,
mas tem um veneno
que enche o planeta
de saudável pimenta!
Você esquenta!

Obrigada por nascer estranho,
sou grata por se achar E.T.
O importante é que você se vê
e isso abre uma lente no humano.
É mais que enconder falhas,
prender a consciência em panos.

Seu passo é mais lento,
mas isso faz você ver mais.
Que bom que é capaz
de enxergar além do trotar comum.
Você não é mais um.
Que alegria, irmão!

Não pense em morrer,
não deseje a prisão.
Solta esse seu coração!
Não rói o osso,
joga sal nesse cantar insosso!

Queria estar contigo esta noite,
estou aqui no clã dos loucos.
Não se deixe rouco.
Você pode mais, e voa!
Que lindo te ver assim à toa.
Você é a minha esperança! Dança!

sábado, 14 de junho de 2008

Domingo




Alguém jamais poderia ignorar um poema desses...rs


Esse é o mal das profundas:

são privadas de curtir o raso.

Por exemplo: eu nesse fim de noite,

doida por um bom amasso,

só tenho proposta com conteúdo.


Inteligência não é tudo

nem ser só carne boa sacia.

Mas o fato é que ele não percebe

que além de poeta, sou plebe.

Sou namorada, mas não todo dia.


Às vezes saio, nesse mar da boiada,

desconfio que perdi os sentimentos.

De papos e olhares, já bem treinada,

desperto mil amores por não amar nada.

Não me deslumbro por querer só momentos


Ele chega como fuga da regra,

mas regra fugida não quer rédia.

Acontece, menino acuado, que

eu também não quero arado.

Sou jardim de paixão pela vida.

Quero só fugir da manada.


Seria só questão de se entregar

e se encontrar comigo em algumas paradas.

É não fugir quando o chama o fogo.

Não há medo de parar

numa simples saída da realidade.

Só há temor em eternidade.


Se você não quer meu convite,

não se preocupe, não desespero.

Apenas gosto de expressar o que quero.

Falando em se afogar, eu sigo:

já tem planos para o domingo?

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Convite